
(...)
O senhor vai entender, senhor Presidente, por que, quando já estávamos bem próximos das portas, eu o chamei com voz forte e segura, a voz de quando eu era jovem, e ele - sabia que não teria resistido - se virou, enquanto eu me sentia aspirada para trás, leve, cada vez mais leve, uma figurinha de carta no vento, uma sombra que se alonga, se retira e se confunde com as outras sombras da noite, e ele me olhava petrificado, mas firme e seguro, e eu me dissipava feliz diante de seu olhar, porque já o via retornando aflito mas forte para a vida, ignorante do nada, ainda capaz de serenidade, talvez até de felicidade. Agora, de fato, em casa, em nossa casa, ele dorme tranqüilo. Um tanto cansado, é claro, porém...".
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(Claudio Magris em "O Senhor vai Entender", São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.53/55)
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