quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Avante

(Fotografia de Anne Wolf, Califórnia, EUA)

Gradiva.

Avante

(Fotografia de Anne Wolf, Califórnia, EUA)

Gradiva.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Por toda uma vida

(Autor desconhecido)

"Estavam num quarto do Over, o motel onde tudo se iniciara e agora tudo se acabava. Tinham acabado de fazer amor, uma expressão que ele sempre abominara. Preferia copular. Não, já não era a mesma coisa. A chama que sempre flamejara com fúria sumira. Ele, depois de cinco anos, a percebera distante. A distância que vira nela o fizera afastar-se também. Era a última vez. Um certo momento ele pareceu ver, ali naquele mesmo quarto, o casal tão cheio de vida, fé e paixão de cinco anos antes. Ela tinha tirado a roupa, naquela primeira vez, e ele parecia não saber o que fazer. 'Você não vem?', perguntou ela. Não foi uma primeira vez gloriosa, mas depois viriam tais e tantas glórias, e tais e tantas misérias, que tudo o que acontecera antes para cada um dos dois tornou-se irrelevante como um tíquete já usado.

'Me diz a coisa mais bonita que você já disse a alguém', pediu ele no instante da separação. 'Você é o homem da minha vida. Uma vez perguntaram para a Tônia Carreiro sobre seu romance com o Rubem Braga. Valeu cem anos, ela respondeu. O nosso também. Cem anos'. Quando ela saiu do carro dele para nunca mais, ele ainda a chamou uma última vez.

'Me beija. Me beija por toda uma vida'.

E então eles se beijaram por toda uma vida".

(Texto "E então se beijaram por toda uma vida" de Fabio Hernandez, publicado em 10.ago.10, no blog Confissões de um Homem Sincero)

Por toda uma vida

(Autor desconhecido)

"Estavam num quarto do Over, o motel onde tudo se iniciara e agora tudo se acabava. Tinham acabado de fazer amor, uma expressão que ele sempre abominara. Preferia copular. Não, já não era a mesma coisa. A chama que sempre flamejara com fúria sumira. Ele, depois de cinco anos, a percebera distante. A distância que vira nela o fizera afastar-se também. Era a última vez. Um certo momento ele pareceu ver, ali naquele mesmo quarto, o casal tão cheio de vida, fé e paixão de cinco anos antes. Ela tinha tirado a roupa, naquela primeira vez, e ele parecia não saber o que fazer. 'Você não vem?', perguntou ela. Não foi uma primeira vez gloriosa, mas depois viriam tais e tantas glórias, e tais e tantas misérias, que tudo o que acontecera antes para cada um dos dois tornou-se irrelevante como um tíquete já usado.

'Me diz a coisa mais bonita que você já disse a alguém', pediu ele no instante da separação. 'Você é o homem da minha vida. Uma vez perguntaram para a Tônia Carreiro sobre seu romance com o Rubem Braga. Valeu cem anos, ela respondeu. O nosso também. Cem anos'. Quando ela saiu do carro dele para nunca mais, ele ainda a chamou uma última vez.

'Me beija. Me beija por toda uma vida'.

E então eles se beijaram por toda uma vida".

(Texto "E então se beijaram por toda uma vida" de Fabio Hernandez, publicado em 10.ago.10, no blog Confissões de um Homem Sincero)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Badman!

(Imagem divulgada por Isaias Malta, Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul)

Como já dizia vovó depois da análise: passarinho que anda com (a)mor-cego acorda de cabeça para baixo.

Badman!

(Imagem divulgada por Isaias Malta, Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul)

Como já dizia vovó depois da análise: passarinho que anda com (a)mor-cego acorda de cabeça para baixo.

domingo, 8 de agosto de 2010

Sabe-se lá

(Ruínas da Sé, Cidade Velha, Portugal)

Certa tarde, ao me deparar com o nome de um dos três irmãos na leitura de uma das cenas de Hamlet, imediatamente lembrei-me dos outros dois, mas percebi, assustada, que justo do mais próximo, do mais lembrado, do mais presente, sempre, o nome me faltou. Não podia ser. Logo ele. Algo não estava certo. Fechei os olhos, forcei a memória: lembrava de suas histórias, do seu sorriso naquela fotografia perdida no tempo, mas o nome não vinha. Lançado no esquecimento para sempre naquele instante. O desespero tomou conta. Angústia de não saber. Perda de um bem querido. Abandonei todos os pensamentos que pudessem atrapalhar na busca daquele nome esquecido por engano, contra a minha vontade e, certamente, no lugar de outro.

"André? Marcelo? Guilherme? Não, não, não" - Outros nomes passaram por mim desassossegados, outras horas fugiram, o dia chegou ao fim. Nenhum vestígio de lembrança. Nada. Pensei em reler cartas antigas onde poderia facilmente encontrar, entre uma novidade e outra, notícias de longe que me levariam ao nome dele, mas resisti. Desejava encontrá-lo sozinha, dentro de mim, onde sua lembrança habitava e, sabe-se lá porque, cedeu às ruínas do esquecimento.

Dois dias se passaram. Muito trabalho. Muito esforço.

Nada.

E mais outro.

Silêncio absoluto.

"Chega" - Parti rumo à prateleira de vídeos e, um por um, tirei todos do lugar até chegar ao disco gravado com as letras garrafais que me trariam de volta... Ricardo. "Não pode ser" - Fiquei perplexa: o meu bisavô se chamava Ricardo. O irmão de minha mãe se chama Ricardo. Esse não era um nome comum, um nome qualquer. Era familiar demais para ser esquecido... e foi. Para sempre. Não consegui me lembrar. Que dor.  O que André, Marcelo e Guilherme traziam em comum além da letra erre - representante do esquecimento de Ricardo -, metáfora da errância de que a vida é feita, era a lembrança de um fim.  

André e Marcello, ex-namorados, muito amados, queridos, mas que o tempo se encarregou de afastar para sempre. Da vida. Do coração. Da lembrança cotidiana. Finais tristes - como devem ser mesmo os finais -, que permitiram que, a partir deles, minha vida pudesse continuar pulsando, errando, seguindo. Como deve ser mesmo.

Guilherme, o filho que não tive, o nome que não nomeou a criança não concebida, um nome sem dono, sem sentido, que guarda sob o manto da esperança de ainda tê-lo, as amarras que me impedem de tentar qualquer outra coisa... sem ele. Ele que me remete a outra letra - L -, um dono sem nome que continua me levando a Ricardo. Filho que não tive. Família não-famíliar. Esquecimento que revela a perda do que não foi. Ainda. "Pra onde?" - penso eu aqui, rindo, neste último lampejo associativo antes do sono me vencer definitivamente por hoje - "Pra lugar nenhum". E continua por aqui, cutucando, remexendo, ocupando, sabe-se lá de que jeito. Sabe-se lá a que preço. Sabe-se lá até quando.

Sabe-se lá

(Ruínas da Sé, Cidade Velha, Portugal)

Certa tarde, ao me deparar com o nome de um dos três irmãos na leitura de uma das cenas de Hamlet, imediatamente lembrei-me dos outros dois, mas percebi, assustada, que justo do mais próximo, do mais lembrado, do mais presente, sempre, o nome me faltou. Não podia ser. Logo ele. Algo não estava certo. Fechei os olhos, forcei a memória: lembrava de suas histórias, do seu sorriso naquela fotografia perdida no tempo, mas o nome não vinha. Lançado no esquecimento para sempre naquele instante. O desespero tomou conta. Angústia de não saber. Perda de um bem querido. Abandonei todos os pensamentos que pudessem atrapalhar na busca daquele nome esquecido por engano, contra a minha vontade e, certamente, no lugar de outro.

"André? Marcelo? Guilherme? Não, não, não" - Outros nomes passaram por mim desassossegados, outras horas fugiram, o dia chegou ao fim. Nenhum vestígio de lembrança. Nada. Pensei em reler cartas antigas onde poderia facilmente encontrar, entre uma novidade e outra, notícias de longe que me levariam ao nome dele, mas resisti. Desejava encontrá-lo sozinha, dentro de mim, onde sua lembrança habitava e, sabe-se lá porque, cedeu às ruínas do esquecimento.

Dois dias se passaram. Muito trabalho. Muito esforço.

Nada.

E mais outro.

Silêncio absoluto.

"Chega" - Parti rumo à prateleira de vídeos e, um por um, tirei todos do lugar até chegar ao disco gravado com as letras garrafais que me trariam de volta... Ricardo. "Não pode ser" - Fiquei perplexa: o meu bisavô se chamava Ricardo. O irmão de minha mãe se chama Ricardo. Esse não era um nome comum, um nome qualquer. Era familiar demais para ser esquecido... e foi. Para sempre. Não consegui me lembrar. Que dor.  O que André, Marcelo e Guilherme traziam em comum além da letra erre - representante do esquecimento de Ricardo -, metáfora da errância de que a vida é feita, era a lembrança de um fim.  

André e Marcello, ex-namorados, muito amados, queridos, mas que o tempo se encarregou de afastar para sempre. Da vida. Do coração. Da lembrança cotidiana. Finais tristes - como devem ser mesmo os finais -, que permitiram que, a partir deles, minha vida pudesse continuar pulsando, errando, seguindo. Como deve ser mesmo.

Guilherme, o filho que não tive, o nome que não nomeou a criança não concebida, um nome sem dono, sem sentido, que guarda sob o manto da esperança de ainda tê-lo, as amarras que me impedem de tentar qualquer outra coisa... sem ele. Ele que me remete a outra letra - L -, um dono sem nome que continua me levando a Ricardo. Filho que não tive. Família não-famíliar. Esquecimento que revela a perda do que não foi. Ainda. "Pra onde?" - penso eu aqui, rindo, neste último lampejo associativo antes do sono me vencer definitivamente por hoje - "Pra lugar nenhum". E continua por aqui, cutucando, remexendo, ocupando, sabe-se lá de que jeito. Sabe-se lá a que preço. Sabe-se lá até quando.

sábado, 7 de agosto de 2010

Não sonhava mais...


... Ao anoitecer, ela o espreitava de dentro da estante de livros, da lareira, do canto da sala, ele ouvia a sua respiração, o sussurrar carinhoso de suas roupas...

Não sonhava mais...


... Ao anoitecer, ela o espreitava de dentro da estante de livros, da lareira, do canto da sala, ele ouvia a sua respiração, o sussurrar carinhoso de suas roupas...