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“Idéia de suicídio; idéia de separação; idéia de retirada; idéia de viagem; idéia de oblação, etc; posso imaginar várias soluções para a crise amorosa e é o que estou sempre fazendo. Entretanto, por mais alienado que eu esteja, não me é difícil perceber, através dessas idéias recorrentes, uma figura única, vazia, que não é outra senão a da saída; aquilo com que eu vivo complacentemente é o fantasma de um outro papel: o papel de alguém que ‘se sai bem’. Assim se revela, mais uma vez, a natureza lingüística do sentimento amoroso: toda solução é impiedosamente devolvida à sua idéia única – quer dizer a um ser verbal; de modo que sendo finalmente linguagem, a idéia de saída vem se ajustar à privação de toda saída: o discurso amoroso é de certa forma um recinto fechado de Saídas.
“Idéia de suicídio; idéia de separação; idéia de retirada; idéia de viagem; idéia de oblação, etc; posso imaginar várias soluções para a crise amorosa e é o que estou sempre fazendo. Entretanto, por mais alienado que eu esteja, não me é difícil perceber, através dessas idéias recorrentes, uma figura única, vazia, que não é outra senão a da saída; aquilo com que eu vivo complacentemente é o fantasma de um outro papel: o papel de alguém que ‘se sai bem’. Assim se revela, mais uma vez, a natureza lingüística do sentimento amoroso: toda solução é impiedosamente devolvida à sua idéia única – quer dizer a um ser verbal; de modo que sendo finalmente linguagem, a idéia de saída vem se ajustar à privação de toda saída: o discurso amoroso é de certa forma um recinto fechado de Saídas.
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Todas as soluções que imagino são interiores ao sistema amoroso: retirada, viagem, suicídio, é sempre o enamorado que se enclausura, vai embora ou morre; se ele se vê enclausurado, indo embora ou morto, é sempre um enamorado que ele vê: ordeno a mim mesmo estar sempre apaixonado e de não estar mais. Essa espécie de identidade entre o problema e a solução define precisamente a armadilha: caio na armadilha porque não está ao meu alcance mudar de sistema: sou ‘feito’ duas vezes: no interior do meu próprio sistema e porque não posso substituí-lo por outro. Esse nó duplo define, parece, um certo tipo de loucura (a armadilha se fecha quando a infelicidade não tem contrário: ‘Para que haja infelicidade, é preciso que o próprio bem faça mal’). Quebra-cabeça: para ‘me sair bem’, seria preciso que eu saísse do sistema (...). Se não fosse da ‘natureza’ do delírio amoroso passar, acabar sozinho, ninguém poderia nunca terminar com isso”.
Todas as soluções que imagino são interiores ao sistema amoroso: retirada, viagem, suicídio, é sempre o enamorado que se enclausura, vai embora ou morre; se ele se vê enclausurado, indo embora ou morto, é sempre um enamorado que ele vê: ordeno a mim mesmo estar sempre apaixonado e de não estar mais. Essa espécie de identidade entre o problema e a solução define precisamente a armadilha: caio na armadilha porque não está ao meu alcance mudar de sistema: sou ‘feito’ duas vezes: no interior do meu próprio sistema e porque não posso substituí-lo por outro. Esse nó duplo define, parece, um certo tipo de loucura (a armadilha se fecha quando a infelicidade não tem contrário: ‘Para que haja infelicidade, é preciso que o próprio bem faça mal’). Quebra-cabeça: para ‘me sair bem’, seria preciso que eu saísse do sistema (...). Se não fosse da ‘natureza’ do delírio amoroso passar, acabar sozinho, ninguém poderia nunca terminar com isso”.
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(Roland Barthes in “Fragmentos de um Discurso Amoroso”, Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995, p. 176/177)
(Roland Barthes in “Fragmentos de um Discurso Amoroso”, Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995, p. 176/177)
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