domingo, 16 de novembro de 2008

Meu Amor

"Querida Isabela,

Feliz aniversário!!
Desejo-lhe, de coração, toda a felicidade, essa mesma que, desde seus primeiros passos, você tem dado a todos aqueles que chegam perto, essa mesma que só você sabe despertar, sabe fazer vibrar ao seu redor.
Você nasceu para transformar a vida em arte e, desde o seu primeiro choro, música, desde suas primeiras palavras, poesia, desde suas primeiras aventuras, trilhas, aí está a vida mais dengosa - graças a você, aí está a vida linda - que você faz e refaz, que você inventa e compartilha, que você entrega e afaga.
Obrigado, meu amor, por toda essa vida que você me dá.
O seu aniversário será para sempre o dia em que a vida ficou bela!!
Com todo o meu amor,"

O Meu Amor!!!

Meu Amor

"Querida Isabela,

Feliz aniversário!!
Desejo-lhe, de coração, toda a felicidade, essa mesma que, desde seus primeiros passos, você tem dado a todos aqueles que chegam perto, essa mesma que só você sabe despertar, sabe fazer vibrar ao seu redor.
Você nasceu para transformar a vida em arte e, desde o seu primeiro choro, música, desde suas primeiras palavras, poesia, desde suas primeiras aventuras, trilhas, aí está a vida mais dengosa - graças a você, aí está a vida linda - que você faz e refaz, que você inventa e compartilha, que você entrega e afaga.
Obrigado, meu amor, por toda essa vida que você me dá.
O seu aniversário será para sempre o dia em que a vida ficou bela!!
Com todo o meu amor,"

O Meu Amor!!!

sábado, 15 de novembro de 2008

Bukowski

Ontem a festa foi minha, mas o anfitrião, BUKOWSKI, prá variar, inspirou alguns a perderem a rédea, a pose, o prumo, e a mim garantiu longas e sonoras gargalhadas com essa "lição do dia" que faço questão de compartilhar com vocês, incorrigíveis amantes da palavra!!!.
.
Como Ser um Grande Escritor
(por Charles Bukowski in "Essa Loucura Roubada que Não Desejo a Ninguém a Não Ser a Mim Mesmo Amém", tradução de Fernando Koproski)
.
"Você tem mais é que comer muitas mulheres
mulheres bonitas
e escrever uns poemas de amor decentes.
.
não se preocupe com a idade
e/ou novos talentos.
.
apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja
.
e vá às corridas ao menos uma vez por
semana

e ganhe
se possível.
.
aprender a ganhar é difícil -
qualquer porcão pode ser um bom perdedor.
.
e não se esqueça de Brahms
e de Bach e de sua
birita.
.
não faça muito exercício.
.
durma até o meio dia.
.
evite cartões de crédito
ou pagar qualquer coisa no
dia.
.
lembre-se que não existe um cu
nesse mundo que vale mais que $50
(em 1977)
.
e se você tiver a capacidade de amar
primeiro ame a si mesmo
mas sempre tenha em mente a possibilidade de
derrota total
ainda que a razão dessa derrota
pareça certa ou errada -
.
um gostinho de morte cedo não é necessariamente
uma coisa ruim.
.
fique longe de igrejas e bares e museus,
como a aranha seja
paciente -
o tempo é a cruz de todo mundo,
mais
solidão
derrota
traição
.
toda essa sujeira.
.
fique com a cerveja.
.
cerveja é o sangue contínuo.
.
um amor contínuo.
.
pegue uma boa máquina de escrever
e enquanto os passos vêm e vão
além da sua janela
bata nela
bata nela com força
.
como se fosse uma luta de pesos pesados
.
faça como o touro em sua primeira investida
e lembre-se dos velhões
que lutaram tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.
se você acha que eles não enlouqueceram
em quartos minúsculos
assim como você faz agora
.
sem mulheres
sem comida
sem esperança
.
você então não está no ponto.
.
beba mais cerveja.
há tempo.
e se não houver
está tudo bem
também".

Bukowski

Ontem a festa foi minha, mas o anfitrião, BUKOWSKI, prá variar, inspirou alguns a perderem a rédea, a pose, o prumo, e a mim garantiu longas e sonoras gargalhadas com essa "lição do dia" que faço questão de compartilhar com vocês, incorrigíveis amantes da palavra!!!.
.
Como Ser um Grande Escritor
(por Charles Bukowski in "Essa Loucura Roubada que Não Desejo a Ninguém a Não Ser a Mim Mesmo Amém", tradução de Fernando Koproski)
.
"Você tem mais é que comer muitas mulheres
mulheres bonitas
e escrever uns poemas de amor decentes.
.
não se preocupe com a idade
e/ou novos talentos.
.
apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja
.
e vá às corridas ao menos uma vez por
semana

e ganhe
se possível.
.
aprender a ganhar é difícil -
qualquer porcão pode ser um bom perdedor.
.
e não se esqueça de Brahms
e de Bach e de sua
birita.
.
não faça muito exercício.
.
durma até o meio dia.
.
evite cartões de crédito
ou pagar qualquer coisa no
dia.
.
lembre-se que não existe um cu
nesse mundo que vale mais que $50
(em 1977)
.
e se você tiver a capacidade de amar
primeiro ame a si mesmo
mas sempre tenha em mente a possibilidade de
derrota total
ainda que a razão dessa derrota
pareça certa ou errada -
.
um gostinho de morte cedo não é necessariamente
uma coisa ruim.
.
fique longe de igrejas e bares e museus,
como a aranha seja
paciente -
o tempo é a cruz de todo mundo,
mais
solidão
derrota
traição
.
toda essa sujeira.
.
fique com a cerveja.
.
cerveja é o sangue contínuo.
.
um amor contínuo.
.
pegue uma boa máquina de escrever
e enquanto os passos vêm e vão
além da sua janela
bata nela
bata nela com força
.
como se fosse uma luta de pesos pesados
.
faça como o touro em sua primeira investida
e lembre-se dos velhões
que lutaram tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.
se você acha que eles não enlouqueceram
em quartos minúsculos
assim como você faz agora
.
sem mulheres
sem comida
sem esperança
.
você então não está no ponto.
.
beba mais cerveja.
há tempo.
e se não houver
está tudo bem
também".

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Amigos, Amigos, Amigos!

Estava eu lá no sofá assistindo o final do Jornal Nacional, ainda com a roupa do trabalho, pensando com meus botões "prá quê que eu fui inventar três dias de comemoração...? Já estou com preguiça...".
.
[Cacete...]
.
Meia hora depois, no mesmo sofá, com a mesma roupa, pensei "ah, não quero ir hoje... estou sem saco... Quero dormir cedo".
.
[Já viu alguém pensar em não ir à sua própria festa de aniversário? Pois é...]
.
Cinco minutos depois toca o telefone. Meu melhor amigo do outro lado:
- E aí, tá animada?
- Não. Tô com sono.
- Vai como?
- Como "vai como"? Vou como sempre...
- Vai sozinha?
- Vou.
- Vamos juntos. A que hora a gente se encontra?
- ...
.
Levantei do sofá. Consegui chegar ao computador. Pensei em responder dois e-mails antes da festa - que já sei que vou. Toca o telefone novamente. Outra grande amiga:
- Oi, filha! E aí, tá animada?
- Em processo.
- Vem cá, tem vela aí na tua casa?
- Prá quê? - Perguntei.
- Pro bolo que eu comprei prá você!
- Hãn???
- Já sabendo que você não compraria um bolo pra levar pra boate, que você não gosta de organizar essas papagaiadas, comprei pra você, ora!
.
Puta que pariu!
Acabo de me lembrar porque preciso de três dias para comemorar o meu aniversário! É para celebrar a vida que tenho perto de todos vocês que eu tanto amo!
.
Até amanhã, meu povo! Com fotos da primeira parte do evento, garanto!

Amigos, Amigos, Amigos!

Estava eu lá no sofá assistindo o final do Jornal Nacional, ainda com a roupa do trabalho, pensando com meus botões "prá quê que eu fui inventar três dias de comemoração...? Já estou com preguiça...".
.
[Cacete...]
.
Meia hora depois, no mesmo sofá, com a mesma roupa, pensei "ah, não quero ir hoje... estou sem saco... Quero dormir cedo".
.
[Já viu alguém pensar em não ir à sua própria festa de aniversário? Pois é...]
.
Cinco minutos depois toca o telefone. Meu melhor amigo do outro lado:
- E aí, tá animada?
- Não. Tô com sono.
- Vai como?
- Como "vai como"? Vou como sempre...
- Vai sozinha?
- Vou.
- Vamos juntos. A que hora a gente se encontra?
- ...
.
Levantei do sofá. Consegui chegar ao computador. Pensei em responder dois e-mails antes da festa - que já sei que vou. Toca o telefone novamente. Outra grande amiga:
- Oi, filha! E aí, tá animada?
- Em processo.
- Vem cá, tem vela aí na tua casa?
- Prá quê? - Perguntei.
- Pro bolo que eu comprei prá você!
- Hãn???
- Já sabendo que você não compraria um bolo pra levar pra boate, que você não gosta de organizar essas papagaiadas, comprei pra você, ora!
.
Puta que pariu!
Acabo de me lembrar porque preciso de três dias para comemorar o meu aniversário! É para celebrar a vida que tenho perto de todos vocês que eu tanto amo!
.
Até amanhã, meu povo! Com fotos da primeira parte do evento, garanto!

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Vozes

"TERCEIRA - As vossas frases lembram-me a minha alma...
SEGUNDA - É talvez por não serem verdadeiras... Mal sei que as digo... Repito-as seguindo uma voz que não ouço que mas está segredando... Mas eu devo ter vivido realmente à beira-mar... Sempre que uma cousa ondeia, eu amo-a... Há ondas na minha alma... Quando ando embalo-me... Agora eu gostaria de andar... Não o faço porque não vale nunca a pena fazer nada, sobretudo o que se quer fazer... Dos montes é que eu tenho medo... É impossível que eles sejam tão parados e grandes... Devem ter um segredo de pedra que se recusam a saber que têm... Se desta janela, debruçando-me, eu pudesse deixar de ver montes, debruçar-se-ia um momento da minha alma alguém em quem eu me sentisse feliz...
(...)
PRIMEIRA - Vejo pela janela um navio ao longe. É talvez aquele que vistes...
SEGUNDA - Não, minha irmã; esse que vedes busca sem dúvida um porto qualquer... Não podia ser que aquele que eu vi buscasse qualquer porto...
PRIMEIRA - Por que é que me respondestes?... Pode ser. . Eu não vi navio nenhum pela janela... Desejava ver um e falei-vos dele para não ter pena... Contai-nos agora o que foi que sonhastes à beira-mar...
SEGUNDA - Sonhava de um marinheiro que se houvesse perdido numa ilha longínqua. Nessa ilha havia palmeiras hirtas, poucas, e aves vagas passavam por elas... Não vi se alguma vez pousavam... Desde que, naufragado, se salvara, o marinheiro vivia ali... Como ele não tinha meio de voltar à pátria, e cada vez que se lembrava dela sofria, pôs-se a sonhar uma pátria que nunca tivesse tido: pôs-se a fazer ter sido sua uma outra pátria, uma outra espécie de país com outras espécies de paisagens, e outra gente, e outro feitio de passarem pelas ruas e de se debruçarem das janelas... Cada hora ele construía em sonho esta falsa pátria, e ele nunca deixava de sonhar, de dia à sombra curta das grandes palmeiras, que se recortava, orlada de bicos, no chão areento e quente; de noite, estendido na praia, de costas e não reparando nas estrelas.
(...)
SEGUNDA - Durante anos e anos, dia a dia, o marinheiro erguia num sonho contínuo a sua nova terra natal... Todos os dias punha uma pedra de sonho nesse edifício impossível... Breve ele ia tendo um país que já tantas vezes havia percorrido. Milhares de horas lembrava-se já de ter passado ao longo de suas costas. Sabia de que cor soíam ser os crepúsculos numa baía do norte, e como era suave entrar, noite alta, e com a alma recostada no murmúrio da água que o navio abria, num grande porto do sul onde ele passara outrora, feliz talvez, das suas mocidades a suposta...
(...)
SEGUNDA (mais baixo, numa voz muito lenta) - Ao princípio ele criou as paisagens, depois criou as cidades; criou depois as ruas e as travessas, uma a uma, cinzelando-as na matéria da sua alma - uma a uma as ruas, bairro a bairro, até às muralhas dos cais de onde ele criou depois os portos... Uma a uma as ruas, e a gente que as percorria e que olhava sobre elas das janelas... Passou a conhecer certa gente, como quem a reconhece apenas... Ia-lhes conhecendo as vidas passadas e as conversas, e tudo isto era como quem sonha apenas paisagens e as vai vendo... Depois viajava, recordando, através do país que criara... E assim foi construindo o seu passado... Breve tinha uma outra vida anterior... Tinha já, nessa nova pátria, um lugar onde nascera, os lugares onde passara a juventude, os portos onde embarcara... Ia tendo tido os companheiros da infância e depois os amigos e inimigos da sua idade viril... Tudo era diferente de como ele o tivera - nem o país, nem a gente, nem o seu passado próprio se pareciam com o que haviam sido...
(...)
SEGUNDA - Um dia, que chovera muito, e o horizonte estava mais incerto, o marinheiro cansou-se de sonhar... Quis então recordar a sua pátria verdadeira..., mas viu que não se lembrava de nada, que ela não existia para ele... Meninice de que se lembrasse, era a na sua pátria de sonho; adolescência que recordasse, era aquela que se criara... Toda a sua vida tinha sido a sua vida que sonhara... E ele viu que não podia ser que outra vida tivesse existido... Se ele nem de uma rua, nem de uma figura, nem de um gesto materno se lembrava... E da vida que lhe parecia ter sonhado, tudo era real e tinha sido... Nem sequer podia sonhar outro passado, conceber que tivesse tido outro, como todos, um momento, podem crer... Ó minhas irmãs, minhas irmãs... Há qualquer coisa, que não sei o que é, que vos não disse... Qualquer coisa que explicaria isto tudo... A minha alma esfria-me... Mal sei se tenho estado a falar... Falai-me, gritai-me, para que eu acorde, para que eu saiba que estou aqui ante vós e que há coisas que são apenas sonhos...
PRIMEIRA (numa voz muito baixa) - Não sei que vos diga... Não ouso olhar para as cousas... Esse sonho como continua?...
SEGUNDA - Não sei como era o resto.... Mal sei como era o resto... Por que haverá mais?...
PRIMEIRA - E o que aconteceu depois?
SEGUNDA - Depois? Depois de quê? Depois é alguma cousa?... Veio um dia um barco... Veio um dia um barco... - Sim sim... só podia ter sido assim... - Veio um dia um barco, e passou por essa ilha, e não estava lá o marinheiro
TERCEIRA - Talvez tivesse regressado à pátria... Mas a qual?
PRIMEIRA - Sim, a qual? E o que teriam feito ao marinheiro? Sabê-lo-ia alguém?
SEGUNDA - Por que é que mo perguntais? Há resposta para alguma coisa?
(uma pausa)
TERCEIRA - Será absolutamente necessário, mesmo dentro do vosso sonho, que tenha havido esse marinheiro e essa ilha?
SEGUNDA - Não, minha irmã; nada é absolutamente necessário.
PRIMEIRA - Ao menos, como acabou o sonho?
SEGUNDA - Não acabou... Não sei... Nenhum sonho acaba... Sei eu ao certo se o não continuo sonhando, se o não sonho sem o saber, se o sonhá-lo não é esta coisa vaga a que eu chamo a minha vida?.. Não me faleis mais... Principio a estar certa de qualquer coisa, que não sei o que é... Avançam para mim, por uma noite que não é esta, os passos de um horror que desconheço... Quem teria eu ido despertar com o sonho meu que vos contei?... Tenho um medo disforme de que Deus tivesse proibido o meu sonho... Ele é sem dúvida mais real do que Deus permite... Não estejais silenciosas... Dizei-me ao menos que a noite vai passando, embora eu o saiba... Vede, começa a ir ser dia.. Vede: vai haver o dia real... Paremos... Não pensemos mais... Não tentemos seguir nesta aventura interior... Quem sabe o que está no fim dela?
(...)
PRIMEIRA - Não faleis mais, não faleis mais... Isso é tão estranho que deve ser verdade. Não continueis... O que íeis dizer não sei o que é, mas deve ser de mais para a alma o poder ouvir... Tenho medo do que não chegastes a dizer... Vede, vede, é dia já... Vede o dia... Fazei tudo por reparardes só no dia, no dia real, ali fora... Vede-o, vede-o... Ele consola.. Não penseis, não olheis para o que pensais... Vede-o a vir, o dia... Ele brilha como ouro numa terra de prata. As leves nuvens arredondam-se à medida que se coloram.. Se nada existisse, minhas irmãs?... Se tudo fosse, qualquer modo, absolutamente coisa nenhuma?... Porque olhastes assim?...
(Não lhe respondem. E ninguém olhara de nenhuma maneira.)
A MESMA - Que foi que dissestes e que me apavorou?... Senti-o tanto que mal vi o que era... Dizei-me o que foi, para que eu, ouvindo-o segunda vez, já não tenha tanto medo como dantes... Não, não... Não digais nada... Não vos pergunto isto para que me respondais, mas para falar apenas, para me não deixar pensar... Tenho medo de me poder lembrar do que foi... Mas foi qualquer coisa de grande e pavoroso como o haver Deus... Devíamos já ter acabado de falar... Há tempo já que a nossa conversa perdeu o sentido... O que é entre nós que nos faz falar prolonga-se demasiadamente... Há mais presenças aqui do que as nossas almas.. O dia devia ter já raiado.. Deviam já ter acordado... Tarda qualquer coisa... Tarda tudo... O que é que se está dando nas coisas de acordo com o nosso horror?... Ah, não me abandoneis... Falai comigo, falai comigo... Falai ao mesmo tempo do que eu para não deixardes sozinha a minha voz... Tenho menos medo à minha voz do que à ideia da minha voz, dentro de mim, se for reparar que estou falando...
TERCEIRA - Que voz é essa com que falais?... É de outra... Vem de uma espécie de longe...
PRIMEIRA - Não sei... Não me lembreis isso... Eu devia estar falando com a voz aguda e tremida do medo... Mas já não sei como é que se fala... Entre mim e a minha voz abriu-se um abismo... Tudo isto, toda esta conversa e esta noite, e este medo - tudo isto devia ter acabado, devia ter acabado de repente, depois do horror que nos dissestes... Começo a sentir que o esqueço, a isso que dissestes, e que me fez pensar que eu devia gritar de uma maneira nova para exprimir um horror de aqueles...
(...)
SEGUNDA - Não sinto nada... Sinto as minhas sensações como uma coisa que se sente... Quem é que eu estou sendo?... Quem é que está falando com a minha voz?... Ah, escutai,..
PRIMEIRA e TERCEIRA - Quem foi?
SEGUNDA - Nada. Não ouvi nada... Quis fingir que ouvia para que vós supusésseis que ouvíeis e eu pudesse crer que havia alguma coisa a ouvir... Oh, que horror, que horror íntimo nos desata a voz da alma, e as sensações dos pensamentos, e nos faz falar e sentir e pensar quando tudo em nós pede silêncio e o dia e a inconsciência da vida... Quem é a quinta pessoa neste quarto que estende o braço e nos interrompe sempre que vamos a sentir?
PRIMEIRA - Para quê tentar apavorar-me? Não cabe mais terror dentro de mim... Peso excessivamente ao colo de me sentir. Afundei-me toda no lodo morno do que suponho que sinto. Entra-me por todos os sentidos qualquer coisa que nos pega e nos vela. Pesam as pálpebras a todas as minhas sensações. Prende-se a língua a todos os meus sentimentos. Um sono fundo cola umas às outras as ideias de todos as meus gestos. Por que foi que olhastes assim?...
TERCEIRA (numa voz muito lenta e apagada) - Ah, é agora, é agora... Sim, acordou alguém... Há gente que acorda... Quando entrar alguém tudo isto acabará... Até lá façamos crer que todo este horror foi um longo sono que fomos dormindo... É dia já. Vai acabar tudo... E de tudo isto fica, minha irmã, que só vós sois feliz, porque acreditais no sonho..."
(Fernando Pessoa in "Poemas Dramáticos", O Marinheiro - O Drama Estático em um Quadro)

Vozes

"TERCEIRA - As vossas frases lembram-me a minha alma...
SEGUNDA - É talvez por não serem verdadeiras... Mal sei que as digo... Repito-as seguindo uma voz que não ouço que mas está segredando... Mas eu devo ter vivido realmente à beira-mar... Sempre que uma cousa ondeia, eu amo-a... Há ondas na minha alma... Quando ando embalo-me... Agora eu gostaria de andar... Não o faço porque não vale nunca a pena fazer nada, sobretudo o que se quer fazer... Dos montes é que eu tenho medo... É impossível que eles sejam tão parados e grandes... Devem ter um segredo de pedra que se recusam a saber que têm... Se desta janela, debruçando-me, eu pudesse deixar de ver montes, debruçar-se-ia um momento da minha alma alguém em quem eu me sentisse feliz...
(...)
PRIMEIRA - Vejo pela janela um navio ao longe. É talvez aquele que vistes...
SEGUNDA - Não, minha irmã; esse que vedes busca sem dúvida um porto qualquer... Não podia ser que aquele que eu vi buscasse qualquer porto...
PRIMEIRA - Por que é que me respondestes?... Pode ser. . Eu não vi navio nenhum pela janela... Desejava ver um e falei-vos dele para não ter pena... Contai-nos agora o que foi que sonhastes à beira-mar...
SEGUNDA - Sonhava de um marinheiro que se houvesse perdido numa ilha longínqua. Nessa ilha havia palmeiras hirtas, poucas, e aves vagas passavam por elas... Não vi se alguma vez pousavam... Desde que, naufragado, se salvara, o marinheiro vivia ali... Como ele não tinha meio de voltar à pátria, e cada vez que se lembrava dela sofria, pôs-se a sonhar uma pátria que nunca tivesse tido: pôs-se a fazer ter sido sua uma outra pátria, uma outra espécie de país com outras espécies de paisagens, e outra gente, e outro feitio de passarem pelas ruas e de se debruçarem das janelas... Cada hora ele construía em sonho esta falsa pátria, e ele nunca deixava de sonhar, de dia à sombra curta das grandes palmeiras, que se recortava, orlada de bicos, no chão areento e quente; de noite, estendido na praia, de costas e não reparando nas estrelas.
(...)
SEGUNDA - Durante anos e anos, dia a dia, o marinheiro erguia num sonho contínuo a sua nova terra natal... Todos os dias punha uma pedra de sonho nesse edifício impossível... Breve ele ia tendo um país que já tantas vezes havia percorrido. Milhares de horas lembrava-se já de ter passado ao longo de suas costas. Sabia de que cor soíam ser os crepúsculos numa baía do norte, e como era suave entrar, noite alta, e com a alma recostada no murmúrio da água que o navio abria, num grande porto do sul onde ele passara outrora, feliz talvez, das suas mocidades a suposta...
(...)
SEGUNDA (mais baixo, numa voz muito lenta) - Ao princípio ele criou as paisagens, depois criou as cidades; criou depois as ruas e as travessas, uma a uma, cinzelando-as na matéria da sua alma - uma a uma as ruas, bairro a bairro, até às muralhas dos cais de onde ele criou depois os portos... Uma a uma as ruas, e a gente que as percorria e que olhava sobre elas das janelas... Passou a conhecer certa gente, como quem a reconhece apenas... Ia-lhes conhecendo as vidas passadas e as conversas, e tudo isto era como quem sonha apenas paisagens e as vai vendo... Depois viajava, recordando, através do país que criara... E assim foi construindo o seu passado... Breve tinha uma outra vida anterior... Tinha já, nessa nova pátria, um lugar onde nascera, os lugares onde passara a juventude, os portos onde embarcara... Ia tendo tido os companheiros da infância e depois os amigos e inimigos da sua idade viril... Tudo era diferente de como ele o tivera - nem o país, nem a gente, nem o seu passado próprio se pareciam com o que haviam sido...
(...)
SEGUNDA - Um dia, que chovera muito, e o horizonte estava mais incerto, o marinheiro cansou-se de sonhar... Quis então recordar a sua pátria verdadeira..., mas viu que não se lembrava de nada, que ela não existia para ele... Meninice de que se lembrasse, era a na sua pátria de sonho; adolescência que recordasse, era aquela que se criara... Toda a sua vida tinha sido a sua vida que sonhara... E ele viu que não podia ser que outra vida tivesse existido... Se ele nem de uma rua, nem de uma figura, nem de um gesto materno se lembrava... E da vida que lhe parecia ter sonhado, tudo era real e tinha sido... Nem sequer podia sonhar outro passado, conceber que tivesse tido outro, como todos, um momento, podem crer... Ó minhas irmãs, minhas irmãs... Há qualquer coisa, que não sei o que é, que vos não disse... Qualquer coisa que explicaria isto tudo... A minha alma esfria-me... Mal sei se tenho estado a falar... Falai-me, gritai-me, para que eu acorde, para que eu saiba que estou aqui ante vós e que há coisas que são apenas sonhos...
PRIMEIRA (numa voz muito baixa) - Não sei que vos diga... Não ouso olhar para as cousas... Esse sonho como continua?...
SEGUNDA - Não sei como era o resto.... Mal sei como era o resto... Por que haverá mais?...
PRIMEIRA - E o que aconteceu depois?
SEGUNDA - Depois? Depois de quê? Depois é alguma cousa?... Veio um dia um barco... Veio um dia um barco... - Sim sim... só podia ter sido assim... - Veio um dia um barco, e passou por essa ilha, e não estava lá o marinheiro
TERCEIRA - Talvez tivesse regressado à pátria... Mas a qual?
PRIMEIRA - Sim, a qual? E o que teriam feito ao marinheiro? Sabê-lo-ia alguém?
SEGUNDA - Por que é que mo perguntais? Há resposta para alguma coisa?
(uma pausa)
TERCEIRA - Será absolutamente necessário, mesmo dentro do vosso sonho, que tenha havido esse marinheiro e essa ilha?
SEGUNDA - Não, minha irmã; nada é absolutamente necessário.
PRIMEIRA - Ao menos, como acabou o sonho?
SEGUNDA - Não acabou... Não sei... Nenhum sonho acaba... Sei eu ao certo se o não continuo sonhando, se o não sonho sem o saber, se o sonhá-lo não é esta coisa vaga a que eu chamo a minha vida?.. Não me faleis mais... Principio a estar certa de qualquer coisa, que não sei o que é... Avançam para mim, por uma noite que não é esta, os passos de um horror que desconheço... Quem teria eu ido despertar com o sonho meu que vos contei?... Tenho um medo disforme de que Deus tivesse proibido o meu sonho... Ele é sem dúvida mais real do que Deus permite... Não estejais silenciosas... Dizei-me ao menos que a noite vai passando, embora eu o saiba... Vede, começa a ir ser dia.. Vede: vai haver o dia real... Paremos... Não pensemos mais... Não tentemos seguir nesta aventura interior... Quem sabe o que está no fim dela?
(...)
PRIMEIRA - Não faleis mais, não faleis mais... Isso é tão estranho que deve ser verdade. Não continueis... O que íeis dizer não sei o que é, mas deve ser de mais para a alma o poder ouvir... Tenho medo do que não chegastes a dizer... Vede, vede, é dia já... Vede o dia... Fazei tudo por reparardes só no dia, no dia real, ali fora... Vede-o, vede-o... Ele consola.. Não penseis, não olheis para o que pensais... Vede-o a vir, o dia... Ele brilha como ouro numa terra de prata. As leves nuvens arredondam-se à medida que se coloram.. Se nada existisse, minhas irmãs?... Se tudo fosse, qualquer modo, absolutamente coisa nenhuma?... Porque olhastes assim?...
(Não lhe respondem. E ninguém olhara de nenhuma maneira.)
A MESMA - Que foi que dissestes e que me apavorou?... Senti-o tanto que mal vi o que era... Dizei-me o que foi, para que eu, ouvindo-o segunda vez, já não tenha tanto medo como dantes... Não, não... Não digais nada... Não vos pergunto isto para que me respondais, mas para falar apenas, para me não deixar pensar... Tenho medo de me poder lembrar do que foi... Mas foi qualquer coisa de grande e pavoroso como o haver Deus... Devíamos já ter acabado de falar... Há tempo já que a nossa conversa perdeu o sentido... O que é entre nós que nos faz falar prolonga-se demasiadamente... Há mais presenças aqui do que as nossas almas.. O dia devia ter já raiado.. Deviam já ter acordado... Tarda qualquer coisa... Tarda tudo... O que é que se está dando nas coisas de acordo com o nosso horror?... Ah, não me abandoneis... Falai comigo, falai comigo... Falai ao mesmo tempo do que eu para não deixardes sozinha a minha voz... Tenho menos medo à minha voz do que à ideia da minha voz, dentro de mim, se for reparar que estou falando...
TERCEIRA - Que voz é essa com que falais?... É de outra... Vem de uma espécie de longe...
PRIMEIRA - Não sei... Não me lembreis isso... Eu devia estar falando com a voz aguda e tremida do medo... Mas já não sei como é que se fala... Entre mim e a minha voz abriu-se um abismo... Tudo isto, toda esta conversa e esta noite, e este medo - tudo isto devia ter acabado, devia ter acabado de repente, depois do horror que nos dissestes... Começo a sentir que o esqueço, a isso que dissestes, e que me fez pensar que eu devia gritar de uma maneira nova para exprimir um horror de aqueles...
(...)
SEGUNDA - Não sinto nada... Sinto as minhas sensações como uma coisa que se sente... Quem é que eu estou sendo?... Quem é que está falando com a minha voz?... Ah, escutai,..
PRIMEIRA e TERCEIRA - Quem foi?
SEGUNDA - Nada. Não ouvi nada... Quis fingir que ouvia para que vós supusésseis que ouvíeis e eu pudesse crer que havia alguma coisa a ouvir... Oh, que horror, que horror íntimo nos desata a voz da alma, e as sensações dos pensamentos, e nos faz falar e sentir e pensar quando tudo em nós pede silêncio e o dia e a inconsciência da vida... Quem é a quinta pessoa neste quarto que estende o braço e nos interrompe sempre que vamos a sentir?
PRIMEIRA - Para quê tentar apavorar-me? Não cabe mais terror dentro de mim... Peso excessivamente ao colo de me sentir. Afundei-me toda no lodo morno do que suponho que sinto. Entra-me por todos os sentidos qualquer coisa que nos pega e nos vela. Pesam as pálpebras a todas as minhas sensações. Prende-se a língua a todos os meus sentimentos. Um sono fundo cola umas às outras as ideias de todos as meus gestos. Por que foi que olhastes assim?...
TERCEIRA (numa voz muito lenta e apagada) - Ah, é agora, é agora... Sim, acordou alguém... Há gente que acorda... Quando entrar alguém tudo isto acabará... Até lá façamos crer que todo este horror foi um longo sono que fomos dormindo... É dia já. Vai acabar tudo... E de tudo isto fica, minha irmã, que só vós sois feliz, porque acreditais no sonho..."
(Fernando Pessoa in "Poemas Dramáticos", O Marinheiro - O Drama Estático em um Quadro)

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Da nova série “No Divã de Sabão”

.
Episódio de hoje:
“O Fálico-Narcisista e os Satélites do Mal”
.
Muito puto da sua vida, o amigo liga e diz:

- Alô. Tá ocupada, filha? Posso falar contigo...?
- Claro... Diz aí. Está tudo bem?!
- Não. Tô péssimo... Não agüento mais. O namoro está uma merda...
- Xi... - Entre uma jurisprudência e outra, nem pensei duas vezes: abandonei o STJ e puxei a cadeira imaginária.

- Olha só, vê se eu não tenho razão. Eu só tenho três programas "religiosos" durante a semana: o tênis na segunda, a corrida na quarta e o choppinho sagrado na sexta. O resto do tempo eu tenho todo livre para ficar com ela. Eu não me importo que ela tenha os seus programas também, claro que não, mas novela na hora do meu jantar, não dá. Eu quero conversar e ela me manda ficar quieto, diz que só na hora do comercial. E ainda reclama que eu sou egoísta, imagine só... Resolve falar no telefone justo na hora do meu jornal e não está nem aí se eu quero silêncio. Gasta com futilidades e quando eu peço explicações diz que não é da minha conta. Ela está cada vez mais agressiva e não percebe que está me afastando assim...

- Sei... – Na impossibilidade de falar qualquer coisa diferente disso naquele momento-desabafo...

- Sabe, andei pensando... Acho que as pessoas são como planetas com vários satélites em volta. Uns “do bem” e outros “do mal”, digamos assim. Os satélites do bem produzem uma força de atração entre os planetas. Os satélites do mal repelem uns aos outros e fazem com que os planetas se afastem. Se para aqueles dois planetas há mais satélites bons do que ruins, eles vão se manter próximos, unidos. Se, ao contrário, os satélites maus estiverem em maior quantidade, os planetas vão começar a se afastar, podendo se perder um do outro para sempre. A minha namorada tem muitas virtudes, sem dúvida, a amo muito, mas se os seus defeitos continuarem se expandindo desta forma no relacionamento, acho que vamos acabar terminando...

- E o que pretende fazer em relação a isso? – Perguntei.

- Como assim? Nada!!! Como posso fazer com que ela mude o seu...

- Pára, fio, pára tudo! - Interrompi - Você não está vendo que está falando de você aí, não??!

- Hãn???

- Você também tem “satélites” bons e ruins, ou não...?!

Silêncio.

- Já parou para pensar que talvez os seus “satélites do mal” estejam igualmente insuportáveis para ela...?

O amigo antes puto, agora refletia - confuso - sobre a possibilidade.

- Eu estou aqui escutando você falar que cobra, cobra, cobra, exige, exige, exige. Que saco isso, hein?! Como se ela tivesse que lhe dar respostas o tempo todo para poder continuar orbitando em torno de você, é isso mesmo?! Sei não, mas fico aqui pensando se essa novela, o telefone, o “escambau”, já não são as formas que ela JÁ encontrou de tocar o “planetinha” dela daí...

- CACETE! - Ele pulou - Será?!!

- Sei não... Pensa bem... Se você quer mesmo a companhia dela, porque não experimenta ao invés de cobrar e exigir, fazer um pouquinho a sua parte? Tenta ficar junto dela na hora da novela, por exemplo, para ver o que acontece... Amanhã, quem sabe, ela desliga a televisão e vem jantar contigo para bater papo...

Ele pensou um pouquinho e, inconsolável, respondeu:

- Porra, amiga, novela é FODA.

- E quem te disse que a vida é fácil, meu amigo, quem te disse?

Da nova série “No Divã de Sabão”

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Episódio de hoje:
“O Fálico-Narcisista e os Satélites do Mal”
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Muito puto da sua vida, o amigo liga e diz:

- Alô. Tá ocupada, filha? Posso falar contigo...?
- Claro... Diz aí. Está tudo bem?!
- Não. Tô péssimo... Não agüento mais. O namoro está uma merda...
- Xi... - Entre uma jurisprudência e outra, nem pensei duas vezes: abandonei o STJ e puxei a cadeira imaginária.

- Olha só, vê se eu não tenho razão. Eu só tenho três programas "religiosos" durante a semana: o tênis na segunda, a corrida na quarta e o choppinho sagrado na sexta. O resto do tempo eu tenho todo livre para ficar com ela. Eu não me importo que ela tenha os seus programas também, claro que não, mas novela na hora do meu jantar, não dá. Eu quero conversar e ela me manda ficar quieto, diz que só na hora do comercial. E ainda reclama que eu sou egoísta, imagine só... Resolve falar no telefone justo na hora do meu jornal e não está nem aí se eu quero silêncio. Gasta com futilidades e quando eu peço explicações diz que não é da minha conta. Ela está cada vez mais agressiva e não percebe que está me afastando assim...

- Sei... – Na impossibilidade de falar qualquer coisa diferente disso naquele momento-desabafo...

- Sabe, andei pensando... Acho que as pessoas são como planetas com vários satélites em volta. Uns “do bem” e outros “do mal”, digamos assim. Os satélites do bem produzem uma força de atração entre os planetas. Os satélites do mal repelem uns aos outros e fazem com que os planetas se afastem. Se para aqueles dois planetas há mais satélites bons do que ruins, eles vão se manter próximos, unidos. Se, ao contrário, os satélites maus estiverem em maior quantidade, os planetas vão começar a se afastar, podendo se perder um do outro para sempre. A minha namorada tem muitas virtudes, sem dúvida, a amo muito, mas se os seus defeitos continuarem se expandindo desta forma no relacionamento, acho que vamos acabar terminando...

- E o que pretende fazer em relação a isso? – Perguntei.

- Como assim? Nada!!! Como posso fazer com que ela mude o seu...

- Pára, fio, pára tudo! - Interrompi - Você não está vendo que está falando de você aí, não??!

- Hãn???

- Você também tem “satélites” bons e ruins, ou não...?!

Silêncio.

- Já parou para pensar que talvez os seus “satélites do mal” estejam igualmente insuportáveis para ela...?

O amigo antes puto, agora refletia - confuso - sobre a possibilidade.

- Eu estou aqui escutando você falar que cobra, cobra, cobra, exige, exige, exige. Que saco isso, hein?! Como se ela tivesse que lhe dar respostas o tempo todo para poder continuar orbitando em torno de você, é isso mesmo?! Sei não, mas fico aqui pensando se essa novela, o telefone, o “escambau”, já não são as formas que ela JÁ encontrou de tocar o “planetinha” dela daí...

- CACETE! - Ele pulou - Será?!!

- Sei não... Pensa bem... Se você quer mesmo a companhia dela, porque não experimenta ao invés de cobrar e exigir, fazer um pouquinho a sua parte? Tenta ficar junto dela na hora da novela, por exemplo, para ver o que acontece... Amanhã, quem sabe, ela desliga a televisão e vem jantar contigo para bater papo...

Ele pensou um pouquinho e, inconsolável, respondeu:

- Porra, amiga, novela é FODA.

- E quem te disse que a vida é fácil, meu amigo, quem te disse?